Written by 1:18 PM CONTO

O mundo além da janela

Havia um mundo rodeado de possibilidades, como os raios que entravam pela janela solitária do meu quarto. Um lugar cheio de cores, de risos e esperança. Eram assim os meus dias a observar do meu ponto de vista, a imagem que refletia na janela.

Algo em mim brincava com cada borboleta, dançava com as partículas de poeira que só apareciam nos raios entre a janela e a cabeceira da minha cama. Eu observava cada grão, imaginava as fadinhas, que me lembram as velhas histórias que minha mãe me contava para poder dormir.

Às vezes conseguia senti-las pousarem em minha testa, fazendo com que sentisse cócegas e a enrugasse. E eu ficava ali, dia após dia, criando mundos um pouco melhores daquele em que minha realidade me obrigava a viver.

Eu, uma linda jovem de 17 anos, tinha certeza de que era linda, pois minha mãe me dizia isso sempre e que em algum lugar lá fora algum moço bonito estava a me esperar. Sempre que ouvia ela falar sobre isso me perguntava como seria possível algum moço bonito lá fora me esperar, se eu nunca saio dessa cama, ou se eu nunca sair dela?

Todas as vezes que eu em minha mente, criava essas indagações, minha mãe sempre se colocava entre mim e a janela. Com um sorriso lindo em sua face, colocava a mão esquerda na cintura que fazia seu vestido deixar ainda mais sinuosa sua cintura e a outra na janela, falava com uma voz doce de que as minhas limitações não impediam de minha mente semear o mundo com minha beleza.

Eu passei muito tempo para entender o que minha mãe dizia. Porém, contarei um pouco do porquê minha mãe dizer essas coisas e do porquê hoje a ter como a responsável pelas minhas conquistas.

Minha mãe, uma jovem senhora de 40 anos, cabelos negros até à altura da cintura, pele clara, assim como a minha, descendente de espanhóis, amante da literatura e uma sonhadora nata. Ela se casou cedo com meu pai, o único amor da vida dela.

Eles tinham uma vida muito linda de se observar. Meu pai, um escritor português, gostava de se sentar em seu escritório e ficar ouvindo música instrumental, enquanto pensava em mais um capítulo para seus muitos livros em aberto. Todas as vezes que minha mãe me colocava no chão da sala ainda pequena, mas já impossibilitada de andar, por conta da minha doença degenerativa, ela ia até ele e ficava na porta da entrada do escritório a observá-lo com o mesmo sorriso que a vejo no meu quarto hoje em dia e o mesmo olhar de quem admira uma linda poesia.

Meu pai, por sua vez, um homem de estatura mediana, barbas malfeitas e que gostava, inclusive, de se vestir como final da década de 50 (camisas sempre quadriculadas com uma combinação de cores inigualáveis, que ficavam ainda mais charmosas com um suspensório e uma colete preto que ele usava), ao perceber que minha mãe e eu estávamos a admirar ele, simplesmente se levantava da poltrona e a pegava pela cintura. Encostava seu rosto e, perdendo-o de vista sob os cabelos longos dela, puxava-a a dançar pela casa.

Essas eram as cenas corriqueiras em toda nossa trajetória antes da trágica partida do meu pai.

Eu tinha apenas 16 anos quando o perdi em um acidente de carro a caminho de casa depois de um dia inteiro de pesquisas na biblioteca da cidade. Ele, também costumava fazer clubes de autores e leitores. Meu pai era um aficionado pela literatura e pela música, talvez por isso aprendi a me refugiar nos livros que tanto amo.

Já a minha mãe, mesmo sofrendo a perda do meu pai, manteve-se firme, segura, mas é notório a tristeza quase sempre escondida por trás de um sorriso de canto e de uma leve passada de mãos para retirar o cabelo da frente do rosto.

 Ela ainda costuma usar os seus vestidos de cintura fina e de detalhes bordados, como quem espera pelo seu eterno parceiro de dança.

Cresci com essas imagens muito bem definidas em minha mente criativa. Minha mãe me incentivou a escrever, talvez porque quisesse me fazer sair das minhas limitações ou fosse apenas para ver em mim algo que a fizesse lembrar do eterno amor de meu pai. O certo é que sempre gostei de criar cenários e mundos que fossem meus, como se eu fosse uma espécie de deusa.

Como sempre gostei de fantasia e lia os grandes clássicos da época eu imaginava duendes, fadas, dragões, seres que viviam em cavernas e outros que conseguiam sobreviver em pântanos e mares. Minha mente era tão inventiva que quase sempre me assustava com a falsa presença de alguns deles em meu quarto (risos).

Mas era incrivelmente difícil para mim pensar ou inventar um romance para saciar meus desejos de ser normal.  Quase sempre que sentia a falta de ter alguém ao meu lado, me acabava a chorar na minha cama. Como eu não conseguia me virar para esconder as lágrimas, minha mãe sempre me pegava nesses momentos. Sentava-se ao meu lado, enxugava-me as lágrimas e, com aquele mesmo sorriso, dizia que ela tinha certeza de que lá fora alguém também estaria a criar mundos nos quais, a espera terminaria com o encontro entre nós dois.

Eu simplesmente fechava os olhos e, mesmo escorrendo lágrimas por eles, tentava fazer com que minha mente criativa criasse um ser assim, só meu, para que juntos pudéssemos criar nosso canto.

Numa tarde como em qualquer outra, minha mãe havia demorado de entrar pela porta do quarto e eu já estava sem saber o que poderia ter acontecido. De repente ouvi o apito do bule antigo a ecoar por toda casa e senti também aquele velho cheiro forte de café, que meu pai adorava quando estava escrevendo, mas desde a sua morte minha mãe nunca mais havia feito. Tinha até mudado o hábito, pois também era aficionada em café, o substituindo por chá ou qualquer outra bebida que fosse igualmente estimulante.

Logo minha mente fazia conexões, confabulações do que poderia significar aquilo. Foi quando ouvi passos na escada, e não eram passos apenas de uma pessoa, tinha outra pessoa com ela. Eram passos firmes, porém uma espécie de calçado emborrachado. Conseguia contar os passos, já percebia que quem quer que fosse pendia com mais força para o lado esquerdo. Tinha também um cheiro peculiar de menta.

Por um segundo não ouvia mais a conversa ou passos, fiquei mesmo que de canto de olhos a observar a porta do quarto. Tal foi a minha surpresa quando minha mãe entrou carregando uma bandeja em uma das mãos, e com ela um belo rapaz, aparentemente mais velho que eu. Deveria ter seus 20 anos ou até mesmo 24, quem sabe.

Cabelo curto, pele negra. Estatura mediana, uma roupa meio demodê , é verdade. Vestia uma velha calça jeans desbotada e uma camisa também jeans, com uma das partes para dentro da calça. Ele tinha olhos lindos, castanhos claros, mas parecia meio perdido, pois não conseguia olhar para mim. Logo fiquei sem graça quando percebi que minha mãe, com a outra mão, parecia o ajudar a se locomover. Enfim, entendi toda a situação: o rapaz era cego. Ele carregava na outra mão o que parecia ser um tipo de case para instrumento musical grande.

Minha mãe o colocou sentado bem em frente à janela, na escrivaninha voltado para mim e logo veio sem me dizer nenhuma palavra sobre o que aquele rapaz estaria fazendo ali. Colocou-me sentada na cama e encostada na cabeceira. Pude, então, perceber o contraste de sua pele com os raios de sol e seus olhos castanhos claros agora mais pareciam cor de mel.

Fiquei ali, impressionada com aquela cena por alguns instantes e logo vi que ele estava a abrir o case de madeira, a retirar com todo o cuidado do mundo aquele belíssimo instrumento: era um violoncelo 4×4, de mogno. Estava tão polido que brilhava ao toque dos raios de sol. Minha mãe estava radiante e sorria de canto ao me ver admirar aquela cena. Logo me soltou e foi saindo de fininho… Ela estava tão perplexa que até esqueceu de nos apresentar. Mas acredito que isso era algo até supérfluo diante da magia que se estabelecia no meu quarto

Então, ele puxou a vareta que estava presa no case e passou uma espécie de pedra de cera nela. Escapava algo como poeira quando se tinha o atrito com as cerdas do arco, então pude ver as fadas, mais uma vez, dançando entre os raios de sol. Ele sorriu, parecia que estava me enxergando e sorrindo do meu jeito bobo de admirá-lo.

Ele colocou a pedra no case  e aprumou o instrumento em sua frente. De repente um som grave ecoou por todo o quarto e meu coração ecoou junto. Não demorou muito para as minhas lágrimas escorrerem como um rio. Via seus dedos deslizando por sobre as cordas e mesmo que suavemente pareciam firmes. Logo percebia que ele dançava junto ao instrumento, percebia que já não eram duas coisas separadas e sim um só ser. Eu estava maravilhada com a cena! Então, ele sorriu mais uma vez e, com a voz suave e grave que mais parecia fazer um dueto com aquele instrumento, concluiu:

– Sinto que gostou da melodia! Você poderia dançar para mim junto com a melodia?

Eu desconcertada, pois ele certamente não sabia que eu não conseguiria sair da cama para dançar, respirei fundo e perguntei a ele como poderia me ver dançando se ele não enxergava. Eu sei que pareci meio grossa ou rude, mas ele, mais uma vez em dueto com seu instrumento, logo respondeu.

– Me disseram basicamente isso quando comecei a aprender a tocar, no entanto cá estou eu, tocando. Apenas, se possível for, dance ao som que produzo e deixe-me sentir sua vibração no ar… Você consegue perceber essas partículas que fazem cócegas na ponta do nariz? – Indagou ele encostando a cabeça no raio de sol da fresta da janela.

Engoli a saliva que descia meio que rasgando a garganta e, como num impulso, lhe respondi:

– Claro que sim! São fadas que vêm me visitar todos os dias… Dançarei para você e lhe contarei cada movimento meu, talvez assim fique mais fácil.

Ele apenas sorriu e começou a tocar uma linda melodia. Eu comecei, ali mesmo deitada com minha limitação, a narrar para ele cada passo, cada balançar dos cabelos ao vento, cada movimento do meu vestido de bolas brancas rendado. Logo estava eu entregue àquele baile: eu ele e as fadas que me serviam de inspiração em cada passo.

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Last modified: 10/07/2024

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