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Cinco anos ultrapassando os silêncios

Por Danielle Santos de Freitas e Livia Mendes Pereira

“O amor bate na porta, o amor bate na aorta”… Este verso de Carlos Drummond de Andrade fala de um amor que irrompe, que invade o corpo e insiste em existir. A revista Aorta nasceu desse mesmo impulso, o desejo de fazer pulsar aquilo que tantas vezes foi silenciado. Antes de existir como revista, ela já batia, ainda tímida e em formação, no gesto coletivo do Caderno Poético, criado em 2021, no meio de uma pandemia que testava a respiração do mundo. Naquele momento em que o tempo parecia suspenso e a vida tão frágil, o Caderno Poético surgiu acendendo uma luz dentro de uma sala escura: um convite para que poetas, leitores e autores pudessem se reconhecer, mesmo a distância, no poder vital da palavra.

O Caderno Poético carregava uma intenção clara desde as primeiras páginas: democratizar o acesso à poesia e dar espaço às vozes empurradas para as bordas do campo literário. Ali começaram a surgir nomes diversos, vindos de muitos lugares, com histórias e linguagens distintas. Em suas seis edições, reunindo autores estreantes, escritores independentes, jovens poetas e criadores já maduros, a revista consolidou algo maior do que um projeto editorial — se tornou uma comunidade.

Foi esse o início que moldou a identidade da Revista Aorta; ali nasceram diálogos relevantes e edificantes. Os poemas brotaram da experiência íntima da perda e da reconstrução. Textos que celebravam a força das mulheres na literatura, na edição dedicada a vozes femininas em diálogo com autoras tais quais Cora Coralina, Conceição Evaristo e Ana Cristina Cesar. Além disso, havia o entendimento da língua portuguesa enquanto território comum unindo Brasil, Angola, Portugal e Moçambique, e a presença da literatura nordestina como um núcleo de imaginação, memória e invenção. Aos poucos, o projeto atravessou fronteiras, alcançou países e novos leitores, a exemplo dos da Rússia. A circulação orgânica, os muitos downloads e o retorno afetivo de quem encontrava nesse projeto um eco de suas próprias vivências revelavam que algo pulsava ali de maneira irreversível.

Dessa base nasceu a Revista Aorta, de um desdobramento natural. Se o Caderno Poético foi o primeiro pulso, a Aorta se transformou no próprio sistema circulatório, complexo e interligado, capaz de fazer fluir intensidades por todo o corpo. O nome Aorta não foi escolhido ao acaso, pois expressa a ideia de circulação, movimento, sangue que corre para sustentar um organismo inteiro. Desde o início, a revista se propôs a ser esse organismo literário vivo, feito de muitas vozes, muitas estéticas e muitos mundos.

Ao longo das edições, a Aorta manteve a promessa de ampliar espaços e reafirmar presenças. Passaram por essas páginas vozes diversas: das premiadas Cida Pedrosa e Isabel Aparecida dos Santos Mayer a Zack Magezi, Isabella de Andrade, Antônio Torres, Ialorixá Thais de Alencar, Madalena Barros e Lázaro Ramos. Daniela Erthal também integrou esse percurso, com uma poesia marcada por afeto, política e interioridade. E muitos outros nomes da poesia contemporânea, do ensaio, da crônica, do conto e das artes visuais contribuíram para a diversidade estética que marca a revista. A Aorta soube criar pontes entre gerações, linguagens e geografias, acolhendo autores em sua primeira publicação e escritores já consolidados no Brasil e na lusofonia.

A cada edição, o escopo foi se ampliando. Entrevistas, reportagens culturais, críticas literárias, poesia, contos, ensaios, colunas e artes visuais se entrelaçaram em uma composição que não hierarquiza gêneros, mas atravessa a literatura como quem atravessa um rio. É um movimento guiado pelo fluxo, atento às pedras, aos redemoinhos, às margens e às profundidades. A edição dedicada à infância, por exemplo, mergulhou nas brincadeiras nordestinas que ultrapassaram gerações e influenciaram os autores Câmara Cascudo, Rachel de Queiroz e Ariano Suassuna. Outras edições refletiram sobre vários temas: memória, corpo, território, futuro, carnaval, tropicalismo, literatura infantil, artes do jogo, circo, bibliotecas, criação coletiva, guerras, a questão da Palestina e a presença do feminino no imaginário literário. Vozes de Carlos Drummond de Andrade, Gilka Machado, Mia Couto, Machado de Assis e Cecília Meireles pulsaram ao longo dos anos.

Nada disso seria possível sem o compromisso ético que sustenta a revista e que faz da literatura um espaço de reparação simbólica. A Aorta cresceu olhando para aqueles que a história insistiu em silenciar. Tornou-se casa para narrativas de mulheres negras, indígenas e periféricas, para autores LGBTQIA+, que escrevem contra a censura dos afetos, para vozes nordestinas que desafiam a centralização do eixo tradicional, para escritores lusófonos, que encontram na língua  portuguesa um território de afeto, conflito e invenção. Ao publicar textos que nascem de territórios culturais, sociais e emocionais diversos, a revista reafirma que a literatura não é neutra. Ela pode reproduzir exclusões ou combatê-las. A Aorta escolheu o combate.

Toda essa história só foi possível graças aos editores, colaboradores, parceiros e, principalmente, aos leitores, que acreditaram nesse pulsar desde o início e criaram um fluxo poético que bombeou incessantemente para que o sucesso e a longevidade da revista pudessem acontecer. Como disse Drummond, ao abrir a porta e a aorta para o amor encontramos corpos, almas, beijos, mãos, que se conversam e que viajam sem mapa, e muitas outras coisas que não ousamos compreender…

Celebrar cinco anos da revista é reconhecer essa trajetória de transbordamento. Não se trata apenas de marcar datas ou enumerar edições, mas de afirmar que a Aorta vem constituindo, ao longo deste tempo, um território em que a palavra encontra abrigo e alcance. Um território que não exige performances de erudição, que não cobra sofisticação literária e que não impõe barreiras simbólicas. Um território que diz: a literatura também é sua.

Este texto foi escrito em PT-BR segundo as regras do novo acordo ortográfico.

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Last modified: 05/03/2026

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