ÁREA DE MEMBROS

Carnavalização da Língua Portuguesa

Do Latim em pó ao Pretoguês, passeando de mãos dadas com muitas línguas


“Quando me sorris
Visigoda e celta
Dama culta e bela
Língua de Aviz

Fado de punhais
Inês e desventuras
Lá onde costuras
Multidão de ais”

É assim que Tom Zé, músico, compositor e um dos maiores representantes da identidade cultural brasileira, inicia a canção “Língua Brasileira”, que dá nome ao álbum lançado em 2022, com músicas criadas para um espetáculo teatral, dirigido por Felipe Hirsch, e que culminou no livro Latim em pó. Nessa introdução, o interlocutor e ouvinte falante da Língua Portuguesa é convidado a rememorar a história de sua língua materna que, após muitas modificações, aportou nesse país continental chamado Brasil e foi carnavalizada a seu modo, carregando em si uma “multidão de ais”. 

A máxima da vida humana na terra é a mudança. Tudo muda o tempo todo, nada é estático. Desde a sua formação, há aproximadamente 4,5 bilhões de anos, o planeta Terra está em constante transformação e não é diferente com a linguagem. As transformações que instituíram a nossa Língua Brasileira, na forma como a conhecemos hoje, têm em si uma série de metamorfoses em falares distintos a cada passo desse caminho. 

É exatamente esse trajeto que o leitor irá percorrer em Latim em pó, convidado pelo autor, Caetano Galindo, a passear pela formação do nosso português. Enfatiza-se o uso do pronome possessivo “nosso”, daquilo que nos pertence, que nos diz respeito. Logo de cara, descobrimos que o exemplar mais erudito do “nosso português” não é nada mais do que um “latim atrapalhado”, pois as mudanças, ao contrário do que foi enraizado em nosso pensamento, não acontecem a partir daquilo que é considerado sofisticado, mas daquilo que um dia foi visto como uma aberração, um desvio, um erro. Talvez essa seja a maior mensagem que se deve apreender nessa caminhada exploratória da Língua Portuguesa do Brasil, como escreveu o poeta Paulo Leminski :“só o erro tem vez”. É nos desvios que as variações acontecem, que as coisas deixam de ser estáticas e sem progressão.

As transformações, na maior parte das vezes, provêm das camadas populares e mais jovens. Esta também é uma premissa das mudanças linguísticas e com a Língua Portuguesa não foi diferente. Carnavalizada pela presença indígena e negra, ela atravessou o oceano para metamorfosear-se em uma língua musical, vocalizada, distinta de sua matriz europeia. Esta é outra revelação importante desse passeio: o Brasil é um país que fala um português marcado pela presença negra. Esta “flor do Lácio” na verdade é uma “flor de Luanda”, um “broto africano”. E a carnavalização, aqui, não deve ser vista como algo pejorativo, mas como uma manifestação da cultura popular, com uma visão de mundo coerente e organizada. A linguagem foi, em muitos momentos, a única forma libertadora de expressão de um povo que estava sendo escravizado e sua influência, que continuou marcada na nossa maneira de dizer e entender o mundo, se opôs a uma repressão oficial, institucionalizada. 

“Babel das línguas em pleno cio
Seduz a África, cede ao gentio
Substantivos, verbos, alfaias de ouro
Os seus olhares conquistam do mouro

Mares-algarismos
Onde um seu piloto
Rouba do ignoto
Almas e abismos

Verbo das correntes
Com seu candeeiro
Todo marinheiro
Caça continentes”
(Língua Brasileira, Tom Zé)

Rememorada nestes encantadores versos de Tom Zé, descortina-se a característica fraterna dessa Língua Portuguesa plural que, com seu jeitinho único, conseguiu unir continentes e culturas tão distintos e foi se transmutando ao longo de séculos de comunicação. Essa nossa “frátria”, emprestando o termo de Caetano Veloso citado por Galindo, reúne uma irmandade de falantes, daquilo que chamamos de lusofonia. Portugueses, brasileiros, africanos, asiáticos e indianos carregam, cada um à sua maneira, os antepassados dessa língua. Nela estão presentes os genes indo-europeu, persa, ibérico, celta, latino, árabe, germânico, tupi e banto. 

É nessa multiplicidade carnavalizada de encontros que este passeio linguístico termina, promovendo um convite para conexões e transformações de culturas e línguas para o futuro, sem esquecer jamais dos caminhos percorridos em seu passado.

Por: Lívia Mendes

Lívia Mendes

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