Entrevista por Olga Pessoa

Ator baiano Everton Machado Paim de Oliveira transforma a história de Lucas Dantas em monólogo potente sobre memória, racismo e libertação
Inspirado na Revolta dos Búzios, espetáculo une teatro, pesquisa acadêmica e ativismo para recolocar no centro da narrativa um dos mais importantes revolucionários negros da história da Bahia.
No final do século XVIII, Salvador foi palco de um dos movimentos mais radicais da história colonial brasileira. Em 1798, homens negros, soldados, artesãos e trabalhadores pobres se organizaram para defender ideias consideradas perigosas pela Coroa portuguesa: igualdade racial, república e o fim da escravidão. O movimento ficou conhecido como Revolta dos Búzios, ou Conjuração Baiana, e teve entre seus principais líderes o soldado Lucas Dantas de Amorim Torres.
Mais de dois séculos depois, a trajetória desse personagem volta ao centro da cena no espetáculo “1798 – Lucas Dantas”, primeiro monólogo do ator baiano após três décadas de carreira. A montagem transforma documentos históricos em dramaturgia e propõe um gesto artístico e político: devolver voz a um personagem negro cuja importância foi frequentemente apagada da narrativa oficial.
Em entrevista à Revista Aorta, o ator fala sobre a criação do espetáculo, os paralelos entre 1798 e o Brasil contemporâneo e o poder do teatro como ferramenta de memória, educação e disputa de narrativas.
“Eu era ignorante sobre a minha própria história”
O encontro do ator com a Revolta dos Búzios começou em 2011, quando foi convidado pelo diretor Paulo Dourado para integrar o espetáculo A Conspiração dos Alfaiates, apresentado na Concha Acústica do Teatro Castro Alves.
“Naquela ocasião eu já era professor formado pela Universidade Federal da Bahia, mas percebi algo que me marcou profundamente: eu era ignorante sobre a minha própria história”, lembra.
A experiência despertou uma investigação que se estendeu para além do palco. A pesquisa se transformou em dissertação de mestrado.
Mais do que construir um personagem, o processo provocou uma reconexão com a própria identidade.
“Interpretar Lucas Dantas me fez entender melhor quem eu sou e também compreender a história da cidade onde vivo.”
Um monólogo construído com documentos históricos
Após anos de pesquisa, o ator decidiu levar Lucas Dantas ao centro da narrativa. O resultado foi um monólogo que mistura teatro, música e documentos históricos.
O formato solo impõe desafios intensos.
“Um monólogo exige o máximo do ator, fisicamente, vocalmente e emocionalmente. É um único corpo em cena responsável por sustentar toda a narrativa.”
Grande parte do texto do espetáculo é construída a partir de registros históricos. As falas atribuídas a Lucas Dantas nos autos do processo colonial foram transformadas em dramaturgia.
“Eu utilizo no palco muitas frases que aparecem nos autos das devassas. São palavras que a história registrou como sendo dele.”
A trilha sonora também dialoga com a memória da revolta e se inspira na tradição percussiva e política do Olodum, conhecido por difundir episódios da história negra da Bahia em suas canções.
1798 e o Brasil de hoje
Se a revolta defendia igualdade racial e liberdade há mais de dois séculos, o ator acredita que as conexões com o presente são inevitáveis.
“Os paralelos são assustadores. A coreografia da opressão combatida em 1798 ainda se repete no racismo estrutural de hoje.”
Ele aponta que, mesmo sendo uma cidade majoritariamente negra, Salvador ainda convive com profundas desigualdades sociais.
No espetáculo, esse diálogo entre passado e presente aparece também na linguagem visual. Projeções de vídeo mostram imagens de movimentos sociais contemporâneos enquanto a narrativa apresenta episódios da revolta.
A proposta é clara: mostrar que as lutas por liberdade continuam.
Teatro como reparação histórica
Para o ator, o teatro tem um papel fundamental na reconstrução da memória brasileira.
“O palco pode funcionar como uma ferramenta de justiça estética e de reparação social.”
Ao colocar personagens negros como protagonistas da narrativa, a peça confronta a versão tradicional da história ensinada nas escolas.
“O público não apenas entende essa história. Ele sente essa história.”
Essa experiência sensível, segundo ele, é capaz de romper com a visão colonial que por muito tempo retratou pessoas negras apenas como figuras submissas.
Do panfleto ao pixel
Um dos elementos mais provocativos do espetáculo nasce de uma pergunta criativa: o que Lucas Dantas de Amorim Torres faria se estivesse vivo hoje?
Em 1798, os revolucionários espalharam pela cidade panfletos manuscritos convocando a população para a revolta. Esses papéis circularam rapidamente entre os cerca de 40 mil habitantes da Salvador colonial.
No espetáculo, essa estratégia ganha uma atualização simbólica.
“Se Lucas Dantas utilizou o panfleto, hoje nós usamos o pixel”, explica o ator.
Durante a pandemia, ele começou a produzir vídeos antirracistas nas redes sociais. Muitos deles viralizaram e acabaram incorporados à estética da montagem.
Atravessando o Atlântico
Depois da temporada em Salvador, o espetáculo deve seguir para circulação nacional e internacional.
Um dos destinos previstos é Angola, onde o ator já se apresentou anteriormente com trabalhos da companhia.
O monólogo foi convidado para integrar um festival internacional de teatro que reúne países de língua portuguesa.
“Levar essa história para Angola tem um significado muito profundo”, afirma.
Assim como o Brasil, Angola também foi colonizada por Portugal. Para o ator, o encontro entre essas histórias revela conexões profundas entre as lutas de libertação no Atlântico negro.
Um ato artístico e político
Mais do que um espetáculo teatral, “1798 – Lucas Dantas” assume explicitamente um posicionamento político.
“É um ato de centralidade do corpo negro como sujeito histórico.”
Ao reunir uma equipe majoritariamente negra e dialogar com o legado de movimentos sociais, a montagem reivindica espaço na disputa pela memória histórica.
“Esse projeto é continuidade de uma luta muito maior. É uma forma de amplificar o grito de liberdade que nossos ancestrais já ecoavam em 1798.”
Teatro como disputa de memória
Mais do que reconstruir o passado, o espetáculo propõe uma reescrita da história a partir de quem foi silenciado.
“O teatro é uma ferramenta de justiça estética e também de reparação social.”
Ao deslocar o foco da narrativa oficial para o olhar dos revolucionários negros, a peça constrói uma contra-história.
“O palco permite que aquilo que muitos quiseram apagar ganhe corpo, voz e emoção. O público não apenas entende a história: ele a sente.”
Para Everton, essa dimensão sensível é fundamental.
“Esse é o papel do teatro. O papel do sensível.”
Ao se colocar no lugar desses homens negros que sonhavam com liberdade, o público é convidado a rever a formação histórica que recebeu — marcada por uma visão colonial que reduziu a população negra à submissão.
“O teatro, portanto, torna-se um espaço onde arte, história e educação se encontram para desmontar essa narrativa colonial.”
Sobre o ator
Ator, professor e pesquisador, Everton Machado Paim de Oliveira atua há mais de 30 anos na cena cultural baiana, articulando teatro, educação e militância antirracista. Mestre em Artes Cênicas e doutorando pela Universidade Federal da Bahia, ele transforma pesquisa histórica em linguagem cênica, como neste monólogo inspirado na Revolta dos Búzios.
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Last modified: 18/03/2026






















