Literatura que pulsa: artigos, ensaios, entrevistas, crônicas e poesia.

Creative digital artwork. Colorful individuals covering mouths among black and white crowd. Concept of fear, censorship, and silent struggle for truth and freedom in modern society.

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O silêncio que herdamos: escutar, escrever, transformar

Dizem que o silêncio é ouro. Mas e quando ele é ferro? Quando pesa como corrente, como censura, como ausência de nome e rosto? Quando não é escolha, mas sentença? Esse é o silêncio que herdamos.

Herdamos o silêncio das histórias apagadas. Dos nomes riscados das árvores genealógicas. Das cartas não enviadas. Das vozes que não puderam ecoar. Herdamos o silêncio das mulheres que não puderam escrever sua própria versão. Dos povos que foram chamados de mito para que as suas memórias fossem esquecidas. Herdamos o silêncio dos tambores que tentaram calar, dos saberes que tentaram sufocar, das línguas que tentaram exterminar.

Mas há algo que o tempo não conseguiu matar: a escuta. Ela resistiu nas rodas de conversa, nos olhos que brilham ao lembrar, nos sussurros que viraram cânticos, nas entrelinhas de quem aprendeu a dizer muito com quase nada. Escutar, na nossa história, é um ato de coragem. Escrever é um gesto de restituição. Transformar é o que escolhemos fazer.

Esta edição da Aorta nasce dessa escuta ativa. E não qualquer escuta, mas a escuta que exige presença, respeito, pausa. Escutamos as vozes indígenas que seguem resistindo com poesia e verdade. Escutamos as mulheres negras que escrevem com o corpo. Escutamos o avesso das narrativas dominantes. Escutamos a ancestralidade africana, a oralidade indígena, a herança europeia que também foi marginalizada. Escutamos aquilo que não teve tempo de ser dito. E escrevemos. Porque a palavra escrita tem o poder de eternizar aquilo que o tempo tentou apagar.

A 18.ª edição é, para nós, um marco. Uma edição de aniversário. São 5 anos da Revista Aorta. 5 anos dando espaço ao que pulsa por dentro. Ao que grita mesmo quando silenciado. Ao que transforma a dor em beleza, e o apagamento em presença. Por isso, esta é a maior edição da nossa história. Maior em páginas, maior em profundidade, maior em urgência.

Aqui, você vai encontrar histórias reais transmitidas pela oralidade e finalmente colocadas no papel. Cartas para o futuro escritas com sangue e afeto. Poemas que gritam, ensaios que abraçam, imagens que falam. Um arquivo vivo de tudo que nos fez calar… e de tudo que agora escolhemos dizer.

Se o silêncio foi herdado, a palavra é escolha. E a nossa é clara: escutar, escrever, transformar.

Aorta, cinco anos. Obrigada por escutar conosco.

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