Por Olga Pessoa

Há encontros que não se organizam apenas em perguntas e respostas. Eles acontecem no tempo suspenso da escuta, no cuidado com a palavra, na emoção que atravessa quem pergunta e quem responde. Esta entrevista nasceu assim.
Itamar Vieira Junior aceitou conversar com a Revista Aorta com a generosidade de quem compreende a literatura como espaço de partilha e responsabilidade. Autor de uma obra que recoloca no centro da narrativa aqueles que a história insistiu em silenciar, Itamar construiu, ao longo da chamada Trilogia da Terra, um dos projetos literários mais potentes da literatura brasileira contemporânea.
Entre o campo e a cidade, entre a memória ancestral e as violências do presente, seus livros não apenas contam histórias: eles escutam. Escutam corpos, territórios, vozes e silêncios que nos constituem como sociedade.
Nesta conversa, a literatura aparece como gesto político, experiência estética e exercício profundo de humanidade. Fala-se de silêncio, oralidade, terra, cidade, escrita, medo e coragem. Fala-se, sobretudo, do direito à vida em sua dimensão mais fundamental: o direito ao chão, ao corpo, à palavra.
Olga Pessoa:
Sua obra é muito associada a dar voz a quem foi historicamente silenciado. Como você entende esse silêncio que atravessa gerações?
Itamar Vieira Junior:
Para alguns, esse silêncio toca mais fundo. É mais profundo. Eu tenho a compreensão de que nossa história, nossa vida, muitas vezes é contada apenas do ponto de vista daqueles que são detentores de privilégios: o privilégio da voz, da escrita, da existência, da experiência.
E a sensação que eu tenho é que, dessa forma, a vida é incompleta. Falta algo. Falta uma parte importante da história que não se conta.
Eu trafego por cidades e vejo estátuas, nomes de ruas, espaços consagrados àqueles que historicamente tiveram privilégios, com raras exceções. Mas uma cidade, um país, não é feito apenas dessas figuras que ostentam seus nomes. É feito de muito mais gente.
E é sobre essas pessoas que eu quero escrever. Porque se uma rua leva o nome de alguém que teve seu lugar na história, essa mesma rua foi aberta, pavimentada, sustentada por pessoas que não têm seus nomes lembrados.
Olga Pessoa: Em Torto Arado e Salvar o Fogo, a terra e os rituais ancestrais aparecem como portadores de memória. Que papel têm a oralidade, os contos, os ritos e os cantos na sua escrita?
Itamar Vieira Junior:
Eu acho que isso é a base de tudo. Durante muito tempo, como leitor, eu me deparei com muitas formas de narrar, algumas inventivas, outras herméticas. Mas literatura é, antes de tudo, como se conta uma história.
Eu fiz um exercício intenso para encontrar a minha voz. E fui reconhecê-la quando me coloquei na posição de ouvinte da linguagem humana, da mais sofisticada àquelas formas de linguagem historicamente desprezadas, marginalizadas.
Trabalhei muitos anos no campo. Ano que vem completo 20 anos nessa experiência, mesmo estando afastado recentemente. E ali eu precisava escutar as pessoas para elaborar relatórios, garantir acesso a políticas públicas.
Foi nessa escuta que descobri que ninguém conta uma história de qualquer jeito. As pessoas narram para cativar, para envolver.
Muitas dessas pessoas não puderam frequentar a escola, não tinham acesso à escrita, mas tinham uma habilidade extraordinária para contar histórias. Essa oralidade ancestral foi o que me permitiu encontrar minha voz literária.
Foi nesse lugar historicamente silenciado, tido como inculto, que eu encontrei a matéria-prima do que eu escreveria e de como eu escreveria. Isso foi uma revolução estética, sim, mas sobretudo uma revolução de vida.
Minhas personagens não se encerram nelas mesmas. Elas são continuidade de uma história. E nós, leitores e escritores, estamos no meio desse fluxo.
Isso rompe com uma visão linear, colonial do tempo. Eu penso o tempo como um círculo: passado e presente se encontram para apontar o futuro.
Olga Pessoa:
Ao lidar com disputa por terra e violência estrutural, como você enxerga o papel da literatura diante dessas questões: testemunhar, denunciar, curar ou tudo isso junto?
Itamar Vieira Junior:
Nós, escritores, estamos sempre refletindo sobre o nosso tempo. A escrita é uma forma de registro.
Se eu fosse jornalista, faria um registro não ficcional. A literatura tem outra habilidade, ela denuncia, mas também elabora.
Eu tenho a sensação de que passei os últimos oito anos escrevendo uma única grande história: o direito ao chão. O direito à terra, que é tão fundamental quanto o direito à vida.
Não há vida humana sem um chão para caminhar, para estar, para se abrigar. E esse direito ainda é negado a muitos — no Brasil e no mundo.
Olga Pessoa:
Em Coração sem medo parece haver uma passagem do silêncio para o enfrentamento. O que mudou em você para que esse livro pudesse ser escrito?
Itamar Vieira Junior:
Foi um processo muito natural de amadurecimento. Eu só poderia chegar a Coração sem medo depois de escrever os dois romances anteriores.
No primeiro, a luta era pela permanência no território ancestral. No segundo, o campo já dialoga com a cidade.
No último, chegamos à cidade como território dos desterrados, daqueles que não puderam lutar pela terra no campo e passam a lutar para sobreviver na cidade.
A cidade se revela fragmentada, violenta, desigual. A violência das facções, da polícia, da segregação urbana.
Em Coração sem medo, a luta já não é apenas pela terra. É pela vida. Pelo corpo, esse primeiro território que habitamos e que está constantemente sob ameaça.
Olga Pessoa:
O que significou, para você, encerrar essa trilogia? Havia algo que precisava ser dito para fechar esse ciclo?
Itamar Vieira Junior:
O ciclo se encerra em parte, porque nenhuma resposta é absoluta.
Foi um exercício profundo, intenso, que consumiu muito tempo da minha vida, mas também me levou a um lugar de compreensão muito maior sobre a nossa história.
Eu não seria o mesmo se não tivesse passado por esse processo. Não escrevo por escrever. Há sempre engajamento, pensamento político e inquietação.
O ciclo se fecha, mas as perguntas permanecem. Espero ter tempo e disposição para continuar escrevendo, não necessariamente sobre a terra, mas sobre outras dimensões da vida humana que me inquietam.
Olga Pessoa:
Você esteve recentemente na Bulgária apresentando a trilogia. O que muda quando essas histórias são lidas fora do Brasil? O que permanece compreensível?
Itamar Vieira Junior:
Fiquei muito impressionado. Foi meu primeiro contato com leitores da Bulgária.
O mais difícil é sempre fazer com que a história se comunique, mas tudo o que é humano se comunica.
Eles vivem guerras, fragmentações territoriais, deslocamentos. São dramas humanos.
A literatura e a tradução nos conectam. Em meio às diferenças, descobrimos semelhanças.
É isso que nos faz parte de uma mesma comunidade: a humanidade.
Olga Pessoa
Hoje, com reconhecimento nacional e internacional, você sente que o escritor Itamar carrega outros tipos de silêncio, expectativas, responsabilidades ou limites?
Itamar Vieira Junior:
O maior desafio é dizer a mim mesmo que é possível continuar. Que é possível me surpreender e surpreender os outros.
Esse impulso criativo só pode desbravar o novo se estiver disposto a sair da zona de conforto com medo, mas com o coração sem medo.
Eu sempre vou me colocar esse desafio: recriar, reinventar, explorar outros aspectos da vida.
Esse embate comigo mesmo é permanente. E eu acho que qualquer pessoa pode fazer isso.
Olga Pessoa:
Itamar, quero fazer só um comentário pessoal. Eu amei quando vi Fátima ( personagem de Coração sem medo) leu Carolina Maria de Jesus. É uma autora que eu sempre trago para as minhas aulas. Trabalho com crianças do 1º ao 5º ano do Ensino Fundamental, e nós sempre lemos Carolina. Quando falei aos meus alunos que entrevistaria o escritor Itamar Vieira Júnior , um aluno perguntou: “Ele é tão famoso quanto Carolina Maria de Jesus?”
E eu respondi: “É, sim. Ele é um escritor maravilhoso. Ele também é traduzido em diversos países.” Para mim, foi uma honra poder entrevistá-lo. E esse mesmo aluno disse: “Ano que vem a senhora traz ele pra gente ler no quinto ano?”
Com certeza vou levar seus livros para que eles te conheçam tão bem quanto conhecem Carolina.
Itamar Vieira Júnior:
Carolina não aparece por acaso na minha trajetória, ela foi fundamental para mim, abriu caminhos para que muitas histórias e muitas vidas pudessem ser contadas. Por isso ela segue viva, celebrada, sessenta anos depois, no coração de tantos leitores.
Olga Pessoa:
Quero agradecer profundamente a sua generosidade, a sua disponibilidade e a sua escrita. Que as suas palavras sigam encontrando leitores atentos, leitores dispostos a espalhá-las. Eu li todos os seus livros, mas confesso, Coração sem medo é o meu preferido. Li como professora de Cid, a professora que o conheceu dos 4 aos 10 anos, antes dele ser atravessado pela violência estrutural, mas também como alguém que reconhece, na sua literatura, vidas reais, trajetórias possíveis. Muito obrigada.
Itamar:
Eu que agradeço, Olga. Muito obrigado pelas perguntas, pelo seu testemunho e pela leitura. Fico muito feliz. Essa é a parte mais bonita da literatura: o encontro entre quem cria e quem acolhe a criação, que é o leitor. E o leitor também é coautor, porque se depara com as palavras, com a narrativa, mas é o mundo interno dele que dá vida à história, que constrói sentido.
Muito obrigado por partilhar isso comigo. Obrigado.
Ao final da conversa, permanece aquilo que a boa literatura sempre deixa: inquietação, abertura, desejo de continuidade. As respostas de Itamar Vieira Junior não encerram temas, elas os expandem. Apontam para um tempo circular, onde passado, presente e futuro se tocam, e onde a escrita não se dissocia da vida.
Encerramos esta entrevista certos de que Coração sem medo não é apenas o fechamento de uma trilogia, mas a afirmação de um gesto: escrever como quem atravessa o medo sem negar sua existência, escrever como quem escolhe permanecer atento, sensível e em movimento.
Que a literatura de Itamar, siga encontrando leitores dispostos a acolhê-las, reinventá-las e fazê-las circular como tudo aquilo que pulsa, insiste e permanece vivo.
Porque, no fim, é disso que se trata: da palavra como território compartilhado.
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Last modified: 17/02/2026























